A História do Videoclipe - Parte 3/4

Vimos nos posts anteriores (aqui e aqui) que a história do Videoclipe se confunde com a história do cinema e da consolidação da música como peça fundamental do entretenimento (e gerador de receitas astronômicas) no século XX. Foi no entanto com a chegada dos "loucos anos 60" que os "Promotional Films" tomaram corpo, muito pela atuação da maior banda de rock de todos os tempos: Os Beatles.

Foi em 1964, aproveitando-se o grande sucesso que a banda fazia no mundo, que a gravadora e a United Artists (um dos braços da MGM) gravaram aquele que seria o divisor de águas para muitas coisas em se tratando de Video e Cinema: A Hard Day's Night (que no Brasil ficou conhecido como "Os Reis do Iê-Iê-Iê") dirigido por Richard Lester, que nada mais era do que um "grande videoclipe" gravado e finalizado em algumas semanas.



É possível assistir todo o filme no youtube.




Cartaz do filme


O que hoje parece apenas um filme comum (ou tosco, para os mais desavisados) é o responsável por toda a alteração da narrativa do cinema, e principalmente dos chamados "semi-documentários" e propriamente do Videoclipe como um todo. Hoje quando vemos: cortes rápidos, takes com câmeras soltas, entrevistas sendo feitas em movimento e principalmente a música como elemento na construção do documentário, estamos olhando para o pontapé dado pelos Beatles com este filme.

Em Help! (Help!, Reino Unido 1965) os Beatles ja traziam novos elementos. As cores e os mesmos produtores do anterior, mas foram os acontecimentos posteriores ao lançamento de Help! que uniu de vez a história dos Beatles com o desenvolvimento do Videoclipe. A Beatlemania dos dois lados do atlântico (para não dizer no mundo todo) era grande demais, convites de aparições em programas de TV e Rádio, bem como shows, vinham de todas as partes do mundo. Para não recusar os convites e principalmente promover melhor seus albuns, a banda e seus produtores lançaram mão (apoiados na experiência de outros artistas e principalmente no sucesso dos filmes) dos "promotional films".



Cena inicial de Help! segundo filme dos Beatles. Você pode assistir o video inteiro no Youtube também.


Era a banda mais popular da época, entrando de cabeça no "experimentalismo" dos promos. E eles gravaram vários de uma vez: "We Can Work It Out" (em 3 Versões), "Day Tripper" (3 Versões), "Help!" (1 Versão), "Ticket To Ride" (1 Versão), e "I Feel Fine" (2 Versões). As versões variavam de país ou continente. O "Promo" de Day Tripper nos EUA era diferente do Promo da Inglaterra (Nos Estados Unidos eram diferentes também os "promos" apresentados na costa Leste e Oeste), por exemplo. Deste jeito a banda estava presente no meio de comunicação emergente e que alçava ser dominante da época: A Televisão.

Com a sofisticação dos discos (camadas, experimentalismos musicais e novos instrumentos sendo introduzidos) era de se esperar que os promos, agora peças fundamentais na divulgação da banda, também entrassem na mesma maré. E foi o que aconteceu com: "Rain" (1966) e "Paperback Wirter" ambos dirigidos por Michael Lindsay-Hogg (que posteriormente dirigiu um promo para os Stones e o último filme dos Beatles: "Let it Be").

"Rain" é o primeiro clipe construído e rodado fora da narrativa óbvia de começo, meio e fim, ou seja, nada de uma historinha com pico central ou apenas um registro da banda tocando. "Rain" é considerado histórico por justamente não ter começo; não ter meio e não ter fim. As imagens apenas aparecem no decorrer do video e são entrelaçados pela música. É possível ver em "Rain" também closes e takes antes impensaveis ou nunca feitos para a época, como super closes em partes do corpo de John Lennon, por exemplo.



Clipe de "Rain"


No entanto foi com Peter Goldamn, diretor de "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane" que os Beatles elevaram os promo clips para um outro patamar. Vieram diretamente do cinema underground a luz dramática, os takes em slow motion, cenas em velocidade reversa, angulos nunca usados e filtros de cores usados na pós-produção (o que a gente chamaria hoje de edição). Com os dois videos era possível se apresentar as músicas na concepção dos artistas, ou como Beatles visualizavam a apresentação psicodélica das mesmas. Notem, estamos falando de 1967.





Primeiro "Strawberry Fields Forever" e depois "Penny Lane". Obras primas de Peter Goldman que elevaram o videoclipe ao patamar de arte.


No final de 67 a banda escreveu, produziu e dirigiu um especial de uma hora para a TV chamado: Magical Mystery Tour, que teve sua primeira exibição na BBC. Mesmo com a baixa aceitação desse especial e dos problemas e lacunas na narrativa, os "promos" saídos dele povoaram a programação de TV's em todo o mundo por vários anos depois.



A abertura de Magical Mystery Tour, especial de uma hora dos Beatles apresentado na BBC no final de 1967


Os Beatles ja tinham entrado em sua fase psicodélica, outros artistas começavam a correr atrás do tempo perdido e estavam vindo os anos 70. Depois viria a consolidação do videoclipe como entretenimento e peça fundamental na construção e divulgação dos artistas, era o surgimento da MTV, mas isso a gente só vê no próximo post.

CURIOSIDADES:

1 - Muita gente deve perguntar sobre o Elvis Presley ou afirmar que os primeiros promos que realmente fizeram muito sucesso foram dele. Isso é uma meia verdade, na real o Elvis fez vários e vários filmes musicais, onde a música era o complemento da história. Os filmes tinham começo, meio e fim e se destinavam diretamente ao Cinema, no caso dos Beatles, eles realmente foram influenciados pelo "Rei do Rock", mas produziram mais material destinado para a televisão e se preocuparam com a estética como um todo.

2 - A Hard Day's Night influenciou o surgimento de um dos maiores sucessos da TV Americana dos anos 60, o seriado: The Monkees, que era a história de uma banda de 4 rapazes que viviam altas aventuras [/sessãodatarde] que sempre terminava com um "promo film" no final.

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